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Mordendo a língua

É meio raro, mas tem dias da gente que parecem seguir um roteiro. É quando, sem querer, o que te acontece à noite vem completar o que aconteceu na tua tarde, sem que você faça nada para isso. Ou quando você pensa alguma coisa e esta coisa se concretiza. Enfim, de repente, teu dia não é um dia qualquer. É um dia com um desfecho quase que literário.

Quinta-feira foi assim.

Depois do trabalho, fui conhecer uma leitora aqui do blog que estava passando o mês na Rep. Tcheca (aliás, espero que ela tenha chegado bem ao Brasil com sua mala cheia de presentinhos Piscadela). Dentre as muuiiitas coisas que nós conversamos, comentei que não aprendi tcheco direito porque ainda não aceitei minha condição de "residente". Parece que eu tenho uma outra vida me esperando, lá no Brasil. Se eu aprender a língua, essa "vida" "desaparece" (sei que pedras vão voar, mas, analisando minha situação, é isso que acontece, simplesmente).

Outras coisas desanimadoras são a má-vontade tcheca em atender, o mau humor deles, o seu modo introvertido e milhões de coisas que já comentei aqui (generalizar faz parte, sorry). Segundo meu ex-colega de trabalho paraguaio, fluente em tcheco, a língua te ajuda a adaptar-se, mas também te atrapalha, porque você descobre que o povo aqui só fala m****. Nem dá vontade de aprender tcheco e falar com esse povo. Quem é interessante, fala inglês ou outras línguas. Depois do nosso encontro, voltei para casa pensando nessas coisas.

De repente, aconteceu a concretização do contrário do meu pensamento. Chegando no ponto de ônibus, fui direto olhar na tabela a hora em que o dito passava. Um cego se aproximou, com seu cão-guia, e ficou bem na frente da tabela. Eu me afastei, sem dar tempo de ver a hora, e caminhei para o lado. O homem, então, perguntou a que horas passava o ônibus. Já fui logo dizendo que não entendia tcheco:

- Ah, que pena - disse o cara.
- É, uma pena, hehe - respondi.
- Mas a que horas passa o 140? - ele pergunta, de novo, ignorando o fato de eu NÃO falar tcheco.

Eu tento me aproximar da tabela e vejo o horário, finalmente.

- 21 horas e 02 minutos.
- Ah, e que horas são???
- Errrrr.... - daí ele puxa um celular e escuta que horas são.

Penso "Beleza, não precisei gastar muito meu tcheco tosco" e já me afasto. Mas o homem resolve ir contra todas as regras da "má-vizinhança tcheca" e  puxa papo.

- Você é ucraniana? - é o que mais tem por aqui.
- Não.
- Russa? - também tem um monte de russas. Antes que ele tente vietnamita, que também tem de monte, eu já digo que sou brasileira.
- Brasileira? Ah, futebol, blá blá blá. Quando joga?
- Segunda... não, domingo!
- Ah, domingo. Futebol, blá blá - não entendi o resto.
- E você faz o quê aqui? Trabalha?
- Sim, trabalho. Meu marido é tcheco.
- Ahhh, tem marido tcheco.
- Gosta daqui?
- Hmmmm... éééé..... gosto.
- Muito frio, né?
- É, hehehe.
- E você mora em casa ou panelak?
- Panelak.
- Uyy - ele faz uma cara feia - e você gosta?
- Sim.
- Eu, não. Moro em uma vila, com casa, jardim...
- Que bom - respondo, embora eu discorde das vantagens. Casa dá o maior trabalho em país que neva.

A conversa durou uns 7 minutos, o tempo de espera do ônibus. Não entendi várias coisas, mas ele fazia questão de repetir, devagar, coisa que minha sogra, por exemplo, nunca fez. Juro que ela é legal, mas não tem paciência para certas (várias) coisas.

A parte mais engraçada da conversa foi esta:
- Blá blá blá - ele diz, jogando a cabeça para o lado do cachorro.
- Desculpa, não entendi.

Ele tenta explicar:

- Eu não vejo.
- Eu sei - tipo, totalmente desnecessário dizer que eu sabia que ele não podia ver, mas já foi.


Depois do mico (ele não pareceu ofendido), eu entendi mais ou menos que ele perguntava se existe cão-guia no Brasil. Eu disse que não muito, porque é caro. Ele diz que aqui também é. O dele era um labrador lindo, negro, chamado Pascal.

O ônibus já estava chegando. Do nada, ele abriu sua bolsinha, tirou uma barra de  chocolate (um que eu adoro, por sinal) e me entregou. Eu não sabia se ele queria que eu abrisse o chocolate para ele ou se ele estava dando para mim, fiquei sem reação por alguns segundos. Perguntei se era para mim, ele respondeu que sim, que era de lembrança.

- Não, por favor, não - disse, sem saber o que fazer. Queria dar a barra de volta para ele, mas pô, o cara é cego, como fazer? Com uma mão ele segurava o cachorro, com a outra ele segurava a bolsa. Eu não sabia se encostava a barra na mão, se tentava enfiar de volta na bolsa, se dava para o cachorro, qualquer coisa que me fizesse me livrar daquele chocolate. Neguei mais umas três vezes, mas acabei aceitando, MUITO sem graça.

Pegamos o mesmo ônibus e eu sentei de frente para ele. Ele ainda tentava falar comigo, mas com o barulho do ônibus e meu tcheco índio, ficou difícil. Antes que eu descesse, segurou a minha mão, como se soubesse o tempo todo onde ela estava, e se despediu.

Cheguei em casa tão leve... e feliz. Contei a história para o marido, entusiasmada. De repente, os tchecos não pareciam mais tão ranzinzas e a ideia de voltar a estudar a língua voltou. Tudo porque um homem resolveu falar comigo no ponto de ônibus.


***

Pensando bem, talvez ele fosse tarado e tenha dito um monte de obscenidades que eu não entendi. Mas, pelo menos, eu ganhei um chocolate.



Escrito por Tati Thé às 08h06
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